Aprendemos cedo a olhar para o corpo feminino como se ele estivesse sempre precisando de algum ajuste. Emagrecer, rejuvenescer, esconder, corrigir, melhorar. E, sem perceber, muitas vezes chamamos de autoestima o momento em que finalmente gostamos do que vemos no espelho.
Só que o corpo muda. Muda com o tempo, a maternidade, os hormônios, a menopausa, doenças, cirurgias e tratamentos. Quando nosso valor está apoiado demais na aparência, qualquer transformação física pode abalar a forma como nos enxergamos.
No Outubro Rosa, a conversa sobre autoestima ganha outra dimensão. O INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil entre 2026 e 2028. O que acontece com cada mulher que vê seu corpo mudar de uma forma que ela não escolheu?
Uma revisão publicada em 2024 na Psycho-Oncology analisou 51 estudos com mulheres submetidas a cirurgias para câncer de mama e encontrou impactos na imagem corporal e na qualidade de vida.
Abordar esse tema não é “vaidade”. É falar de identidade.
Mama, cabelo, pele e cicatrizes fazem parte da forma como uma mulher se reconhece. Mudanças visíveis podem atingir o bem-estar emocional e estão associadas com o desenvolvimento de ansiedade e depressão, por exemplo.
Cada mulher vive a questão de um jeito. Tristeza, raiva, insegurança ou estranhamento podem fazer parte desse processo.
De forma intrínseca, existe uma cobrança para que a mulher seja forte, positiva, guerreira e transforme suas cicatrizes em símbolos de superação. Mas atravessar toda essa transformação também exige, é claro, coragem.
Uma mulher pode não gostar do que aconteceu com seu corpo e precisar de tempo para voltar a se reconhecer. Nada disso diminui sua força ou seu valor, muito menos deveria comprometer sua autoestima.
Ela precisa continuar se tratando com respeito e dignidade, inclusive nos dias em que não gosta do reflexo que encontra no espelho. Afinal, “não gosto desta parte de mim” é muito diferente de “não gosto mais de quem eu sou”.
O câncer de mama torna essa conversa urgente, mas ela começa antes da doença. Gravidez, envelhecimento, menopausa e tratamentos desafiam a imagem que construímos de nós mesmas. Então, vale a reflexão: se o seu corpo muda, por qual motivo seu valor mudaria também?
Amar a si mesma não significa achar tudo lindo no espelho sempre. Significa entender que nenhuma mudança física tem poder para apagar sua inteligência, sua coragem, seus vínculos, seus desejos e sua história.
O corpo muda. E esse é um convite para soltar a necessidade de controlar cada transformação, entregar o que não está em nossas mãos e confiar que quem somos continua existindo para além do que mudou por fora.
Nem sempre escolhemos o que a vida transforma, mas podemos escolher como nos relacionamos com aquilo que permanece em nós, e essa é uma reflexão que atravessa meu livro “Solte, Entregue, Confie”. O espelho mostra o seu corpo, mas nunca será grande o suficiente para revelar todo o seu valor.
O Outubro Rosa precisa continuar falando de prevenção, diagnóstico e tratamento, mas também precisa nos lembrar de algo que vem antes da doença: construir uma relação conosco que seja maior do que aquilo que o espelho reflete.
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*Melissa Artioli é coach de Desenvolvimento Humano, palestrante, executiva com mais de 20 anos de experiência e empreendedora. É autora de “Solte, Entregue, Confie – Uma jornada para sua melhor versão“, publicado pela DVS Editora.







